O TESTEMUNHO DA MENINA DA BONECA DE KAFKA
O TESTEMUNHO DA MENINA DA BONECA DE KAFKA
Alberto Pucheu
Quando agora sou, então, uma anciã, morando na floresta em que
resolvi passar meus últimos anos, depois de ter silenciado sobre o mais
importante, ao menos, sobre o mais importante em minha vida, depois de
ter, de alguma maneira, fugido do mais importante, ao menos, do mais
importante de minha vida, posso, finalmente, atando os extremos, falar: a
menina da boneca de Kafka envelheceu, mas tem saúde para dar seu
testemunho, para fazer, ainda, seu testamento. Lembro-me pouco, quase
nada, do episódio com o casal do parque de Steglitz.
A princípio, fora a
moça – mais tarde me dei conta de quão jovem ela era em relação ao seu
companheiro – quem, por seu rosto enigmático, me chamou mais atenção;
mas foi ele quem, atencioso, logo me dirigiu a palavra, querendo saber
por que eu, desesperada, chorava tanto. Se ela chamara primeiramente
minha atenção, assim que ele pronunciou as palavras para me acalmar, de
tão terno era seu modo de falar e olhar, o mundo parecia ter seu
desespero diminuído por conta da boneca que eu, com não mais do que
cinco anos, havia perdido. A partir daí, me recordo tão somente dele, ou
melhor, nem sei se dele, mas de sua voz dizendo que eu não perdera a
boneca, mas que ela, por vontade própria, apesar de me amar muito, havia
feito uma viagem, endereçando-lhe uma carta para que ele a entregasse a
mim tão logo conseguisse me encontrar.
Com a doçura de quem guarda uma
verdade secreta, ele insistia que ela viajara por querer sair de casa,
ir para lugares que, sem mim, ela quisesse ir, conhecer outras pessoas,
ser amiga de outras bonecas, frequentar uma escola, ter namorados,
casar, trabalhar e levar uma vida diferente da que até então havia sido a
sua, como, certamente, me disse ele, aconteceria também comigo no
futuro. Claro que ele não estava com a carta em mãos, mas, depois de ter
me dito que me entregaria no dia seguinte a carta da boneca que eu
achava que perdera, aquele homem bem vestido e de aparência um tanto
frágil, disfarçando uma respiração ofegante e uma voz enrouquecida, foi
embora, deixando-me esperançosa e pensativa no parque, até que eu
pudesse retornar mais confortada para casa. No dia seguinte, ele estava
lá, com a carta, e no seguinte do seguinte, com outra carta, e no
seguinte do seguinte do seguinte, com mais uma.
Por três semanas, sempre
na hora marcada, sem jamais ter tido um pequeno atraso que fosse, ele
esteve diariamente comigo no parque de Steglitz, lendo, a cada dia, para
mim, sem conseguir disfarçar uma comoção em sua voz, uma nova carta
que, sem eu saber, ele próprio escrevera na noite anterior em nome da
boneca, inventando para ela, ou melhor, inventando para mim, uma
história que me animasse, uma história que me acalmasse, uma história
que me preparasse para uma separação menos dolorida da boneca que eu
amava. O que sempre mais me impressionou nas cartas era como, a cada uma
delas, ele assegurava o amor da boneca – que se chamava Marion – por
mim e, aos poucos, distanciava-a de mim sem que eu mesma percebesse o
afastamento gradativo, como se, aos poucos, ele substituísse a boneca
pelas cartas enviadas, sem substituir de modo algum o amor, que
permanecia igual.
Com elas, eu aprendi a preservar o amor em mim mesmo
nos vários momentos em que ele parecia se ausentar, mas não, ele não se
ausentava, ele estava ali, naquelas cartas que, durante décadas, guardei
em um estojo de carvalho. Elas foram a maior lição de amor que eu
recebi, e, primeiro em sua presença e, depois, em sua ausência, elas me
acompanharam toda a vida, transformando-me, e ainda hoje as guardo aqui
dentro de mim como o que de mais íntimo e de mais estranho – certamente,
o de mais maravilhoso – jamais me aconteceu. Décadas depois do
encontro, quando eu estava em minha meia idade, soube que um homem
frequentava diariamente o parque e tocava a campainha dos apartamentos
ao redor dele tentando encontrar a outrora menina que havia recebido as
cartas daquele que se revelara o maior escritor do século 20. No dia em
que li um anúncio no jornal pelo qual se procurava a tal menina com suas
cartas, tomei a única decisão que me cabia: fugir, antes de ser
encontrada, antes, talvez, que eu mesma me revelasse. No que de mais
fundo me concernia, aquelas cartas não deveriam ganhar notoriedade: elas
surgiram de um dos encontros mais inesperados entre anônimos, no parque
de Steglitz. Torná-las públicas seria trair o gesto mais expressivo
daquele homem, trair o que, naqueles dias, ele me ensinou: o amor que um
desconhecido pode sentir por outro desconhecido qualquer, dedicando-se
incansavelmente a ele, simplesmente para diminuir-lhe a dor.
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