O TESTEMUNHO DA MENINA DA BONECA DE KAFKA





O testemunho da menina da boneca de Kafka from Gabriela Capper on Vimeo.

O TESTEMUNHO DA MENINA DA BONECA DE KAFKA

Alberto Pucheu

Quando agora sou, então, uma anciã, morando na floresta em que resolvi passar meus últimos anos, depois de ter silenciado sobre o mais importante, ao menos, sobre o mais importante em minha vida, depois de ter, de alguma maneira, fugido do mais importante, ao menos, do mais importante de minha vida, posso, finalmente, atando os extremos, falar: a menina da boneca de Kafka envelheceu, mas tem saúde para dar seu testemunho, para fazer, ainda, seu testamento. Lembro-me pouco, quase nada, do episódio com o casal do parque de Steglitz. 

A princípio, fora a moça – mais tarde me dei conta de quão jovem ela era em relação ao seu companheiro – quem, por seu rosto enigmático, me chamou mais atenção; mas foi ele quem, atencioso, logo me dirigiu a palavra, querendo saber por que eu, desesperada, chorava tanto. Se ela chamara primeiramente minha atenção, assim que ele pronunciou as palavras para me acalmar, de tão terno era seu modo de falar e olhar, o mundo parecia ter seu desespero diminuído por conta da boneca que eu, com não mais do que cinco anos, havia perdido. A partir daí, me recordo tão somente dele, ou melhor, nem sei se dele, mas de sua voz dizendo que eu não perdera a boneca, mas que ela, por vontade própria, apesar de me amar muito, havia feito uma viagem, endereçando-lhe uma carta para que ele a entregasse a mim tão logo conseguisse me encontrar. 

Com a doçura de quem guarda uma verdade secreta, ele insistia que ela viajara por querer sair de casa, ir para lugares que, sem mim, ela quisesse ir, conhecer outras pessoas, ser amiga de outras bonecas, frequentar uma escola, ter namorados, casar, trabalhar e levar uma vida diferente da que até então havia sido a sua, como, certamente, me disse ele, aconteceria também comigo no futuro. Claro que ele não estava com a carta em mãos, mas, depois de ter me dito que me entregaria no dia seguinte a carta da boneca que eu achava que perdera, aquele homem bem vestido e de aparência um tanto frágil, disfarçando uma respiração ofegante e uma voz enrouquecida, foi embora, deixando-me esperançosa e pensativa no parque, até que eu pudesse retornar mais confortada para casa. No dia seguinte, ele estava lá, com a carta, e no seguinte do seguinte, com outra carta, e no seguinte do seguinte do seguinte, com mais uma. 

Por três semanas, sempre na hora marcada, sem jamais ter tido um pequeno atraso que fosse, ele esteve diariamente comigo no parque de Steglitz, lendo, a cada dia, para mim, sem conseguir disfarçar uma comoção em sua voz, uma nova carta que, sem eu saber, ele próprio escrevera na noite anterior em nome da boneca, inventando para ela, ou melhor, inventando para mim, uma história que me animasse, uma história que me acalmasse, uma história que me preparasse para uma separação menos dolorida da boneca que eu amava. O que sempre mais me impressionou nas cartas era como, a cada uma delas, ele assegurava o amor da boneca – que se chamava Marion – por mim e, aos poucos, distanciava-a de mim sem que eu mesma percebesse o afastamento gradativo, como se, aos poucos, ele substituísse a boneca pelas cartas enviadas, sem substituir de modo algum o amor, que permanecia igual. 

Com elas, eu aprendi a preservar o amor em mim mesmo nos vários momentos em que ele parecia se ausentar, mas não, ele não se ausentava, ele estava ali, naquelas cartas que, durante décadas, guardei em um estojo de carvalho. Elas foram a maior lição de amor que eu recebi, e, primeiro em sua presença e, depois, em sua ausência, elas me acompanharam toda a vida, transformando-me, e ainda hoje as guardo aqui dentro de mim como o que de mais íntimo e de mais estranho – certamente, o de mais maravilhoso – jamais me aconteceu. Décadas depois do encontro, quando eu estava em minha meia idade, soube que um homem frequentava diariamente o parque e tocava a campainha dos apartamentos ao redor dele tentando encontrar a outrora menina que havia recebido as cartas daquele que se revelara o maior escritor do século 20. No dia em que li um anúncio no jornal pelo qual se procurava a tal menina com suas cartas, tomei a única decisão que me cabia: fugir, antes de ser encontrada, antes, talvez, que eu mesma me revelasse. No que de mais fundo me concernia, aquelas cartas não deveriam ganhar notoriedade: elas surgiram de um dos encontros mais inesperados entre anônimos, no parque de Steglitz. Torná-las públicas seria trair o gesto mais expressivo daquele homem, trair o que, naqueles dias, ele me ensinou: o amor que um desconhecido pode sentir por outro desconhecido qualquer, dedicando-se incansavelmente a ele, simplesmente para diminuir-lhe a dor.

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